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Resenha do livro "Meu semelhante", de Heitor Ferraz Mello (Rio de Janeiro, 7Letras, 2016), publicada no Suplemento Literário de Minas Gerais (Edição 1376, jan/fev. 2018)
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  JANEIRO/FEVEREIRO 2018  17 O mais recente livro de po-emas de Heitor Ferraz Mello,  Meu semelhante (Rio de Janeiro: 7letras, 2016), deriva seu título do último verso do po- ema de abertura de  As ores do mal , de Charles Baudelaire, “Au lecteur”, a quem o poeta francês se dirige nos seguintes termos: “ – Hypocrite lecteur, – mon semblable, – mon frère!” (“ – Hipócrita leitor, – meu semelhante, – meu ir-mão”). O verso baudelairiano, indicativo de uma relação de cumplicidade e antagonismo com o leitor, é retomado explicitamente por Ferraz Mello no poema “Amigos”, o qual ter-mina assim: “Ó meu semelhante/ dedo-duro/ leitor” (p. 50). A transformação do hipócrita em dedo-duro nestes tempos de “delação pre- miada” conecta de modo inusitado a proble- mática do duplo literário a problemas do Brasil contemporâneo.Mas em  Meu semelhante  o duplo não é ape-nas o leitor, “que dorme a sono solto/ sentado na plateia” (“Oculto”, p. 30) enquanto o poeta lhe acena, mas também os povos srcinários deste país – que em seus “ritos antropofági- cos”, ao contrário do colonizador, desconhecem a crueldade e a tortura, as quais acabaram por consolidar uma “sórdida tradição” e um “vo-cabulário da violência” (“eu existo/ porque te mato”, p. 13) –; os mendigos, “outros de classe” para o artista ciente de seus relativos privilé-gios; o suicida (“Da varanda/ nenhum resquí-cio/ de suicídio”, p. 16) e o morto “enterrado/ num saco de pancadas” (“O duplo”, p. 17); o lho, cujo rosto é aitivamente “duplicado no meu/ como uma máscara/ um encaixe/ que desfoca” (“Filho-pai”, p. 69); a própria voz autonomizada. A imagem da capa, em que se vê a sombra do autor fumando um cigarro contra um fundo de pastilhas brancas, de certa maneira evoca também a imagem dúplice da capa do livro anterior, Um a menos  (2009), descrita em um poema ainda mais antigo, da coletânea Coisas imediatas  (2004), sobre o avô paterno do poeta: “Fotografou com a máquina fotográfica sua própria/ duplicação sobrepondo uma imagem sobre outra sua/ imagem entregando a si mesmo o mesmo jornal do dia” (“Oficina me cânica”, p. 17). A sombra e o reflexo como imagens do du - plo foram objeto de análise no célebre ensaio do psicanalista vienense Otto Rank, O duplo (1914), que vincula tais representações ao medo da morte: “Parece então evidente que foi o narcisismo primitivo, sentindo-se parti cularmente ameaçado pela destruição inevitável do eu, que criou, como toda representação da alma, uma imagem tão exata quanto possí  vel do eu corporal, quer dizer, um verdadeiro Duplo, a fim de dar um desmentido à morte pelo desdobramento do eu sob a forma de sombra ou de re  f  lexo” ( RANK, O .   Don Juan  et Le Double . Paris: Payot, 2010, p. 138.) Em  Meu semelhante , essa presença obsessiva da morte por trás do duplo desdobra-se em vá rias imagens de queda, presentes em poemas como “Ícaro” (p. 23), “Poética do tombo” (p. 24) e “Viaduto” (p. 77), e na atmosfera paranoica, fortemente reforçada pela realidade nas circunstâncias históricas presentes. A vigilância  full time , 24 × 7, comparece em composições como “Tocaia” – “Sei que tem alguém olhando/ oque escrevo/ por cima de meus ombros [...] Tem alguém ali/ sempre esteve ali (foram anos de tocaia)”, p. 48, “Trânsito desviado” – “Sempre ouço alguém/ me chamando [...] É meu nomemartelando/ como se de dentro/ essa voz me pedisse socorro”, p. 72 – e “Suspeitos” (p. 78), em que as câmeras de vigilância de um prédio de escritórios acabam por aproximar um me- nino drogadito da rua Augusta e o eu lírico que sai para fumar no meio do expediente, ambos sob a mira pan-óptica do capital. Em “Ombros”, a luz de um helicóptero invade um quarto para vasculhar “dentro/ do espaço privado/ o crime/  ovestígio de algum crime”, xando em gravura À SOMBRA DOS MOURÕES FABIO WEINTRAUB  da poeta argentina Tamara Kamenszain (“Soy la okupa de mi propia casa”) que também se serve da imagem da “invasão” do espaço íntimo pelo exterior para gurar a separação amorosa. No entanto, talvez seja lícito armar que em  Meu semelhante  o problema da violência e a co- nexão entre a intimidade e a miséria das ruas recebem tratamento mais abrangente e siste- mático. Heitor vai das nossas srcens coloniais ao “futuro que passou” (título da terceira seção de poemas), mobiliza o universo das relações laborais (com poemas sobre acidentes de tra-balho e trituração fabril, como “Mãe”, p. 63, e “Belenzinho”, p. 64) e do desemprego (“Barão de Itapetininga”, p. 42), e adentra o campo da metalinguagem, servindo-se de metáforas fun- diárias para discutir o estatuto da poesia e o lugar do escritor.Se uma das mais potentes fontes de barbá- rie se liga à defesa encarniçada do direito de propriedade, Heitor reivindica a poesia como “Invasão de propriedade” (p. 31), esbulho pos- sessório, expropriação, identicando-se com aqueles que abrem novos buracos nas cercas de arame farpado. Já não servem o recuo drum-mondiano do “fazendeiro do ar” e tampouco as comparações entre poetas e minhocas (estas arejam a terra, aqueles, a linguagem) criadas pelo poeta fazendeiro Manoel de Barros sem fazer caso das cercas. É preciso investir contra osanto dogma patrimonial, que ameaça igual- mente os párias urbanos (os desempregadosda Barão de Itapetininga, o craqueiro da rua Augusta, o sapateiro da Vila Mariana...), os po-  vos srcinários, os operários mastigados pela fábrica, os escritores sem rma autenticada(“Reconhece rma/ o poeta que arma?”, lê --se em “Cartório”, p. 33) e aqueles que, usur-pando-nos o nome, mandam poemas para oeditor sem nosso consentimento, como se vê em “Caro editor” (p. 21) – peça autoirônicade um poeta sensível às acusações de falta de humor (“Alguém dirá/ que é uma poesia me- lancólica/ de muito pouco humor”, declara em“Sapataria”, p. 32). Graças talvez a esse olhar abrangente e ao viés antipatrimonial, o poeta vai além do bom-mocismo compassivo e nostálgico em face dos deserdados e abre buracos na cerca da linguagem, deslocando fronteiras, mistu-rando referências clássicas (ver “Ícaro”, p. 23, “Prometeu”, p. 28, “Erínias”, p. 29, e também “Deletar” em que a questão da propriedade reaparece pelo contraponto entre o papel da memória na poesia antiga e a angústia de apa- gamento em tempos infodigitais) e contem- porâneas, passando do poema-minuto a peças em prosa, como “Viaduto”. Nessa composição, em que o eu lírico observa um homem debru- çado sobre o viaduto com intenção de se ati- rar (“Olharia para baixo com os olhos elásticos daquele homem, que também seriam meus olhos”, p. 77), Heitor cruza Mallarmé com a fa-  vela de Pinheirinho, em São José dos Campos (SP) – cujos moradores foram despejados em 2012 por uma ação de reintegração de posse durante a qual policiais cometeram crimes de estupro, tortura e lesão corporal –, sobrepondo oniilismo do simbolista francês às práticas lo -cais de aniquilação levadas a cabo por agentesda Segurança Pública. 18 18 Isso tudo sem mencionar a vocação pictórica de outras composições do livro, traço que dis- tingue desde o início o trabalho de Ferraz Mello , nas quais a luz radiografa o interior do ôni - bus (“Sol”, p. 46), resiste na roupa dos meninos  voltando à noite para casa “com as camisetas/ rompendo/ grávidas/ de tanto sol” (“Andar”, p. 56) e xa em gravura o horror dos corpos vigia -dos, conforme já vimos em “Ombros”. De todo modo, a convergência de diversos elementos da obra pregressa de Heitor em  Meu semelhante  vai imantada pela visão deste país que não se completa (“Incompleto/ como este desenho/ este contorno/ feito a lápis/ Um país? Ou o quê?”, “Caça”, p. 41) enquanto não puser em questão a lógica da cerca, integrando seus duplos e revelando os mortos sob a sombra dos mourões. F A BIO WEINTRAUB é paulistano. Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, é autor dos livros de poemas Novo endereço  (2002) e Treme ainda  (2015), entre outros títulos. O poeta Heitor Ferraz Mello na parede a imagem “de um corpo que afunda” (pp. 83-4).A violência, as imagens ligadas ao universo da morte e a interpenetração entre espaço pú- blico e espaço doméstico não constituem pro- priamente novidade na poesia de Heitor Ferraz Mello. Basta lembrar, no que tange à violência, de exemplos como a retomada da “maçã bandei- riana”, convertida em hematoma no rosto cujo malar é afundado por mão rude (“Não sei como as histórias são feitas”), ou do poema sobre o cadáver em cima de uma árvore, que só precisa “soltar as mãos/ para começar a cair” (“Estou morto”), ambos exemplos pinçados do livro Um a menos . Ou de poemas como “Velórios”, de  Pré-desperto , “Paralisia”, de Ontem como hoje ao meio-dia , ou “Anjo de pedra”, de Goethe nos olhos do lagarto , em que abundam cadáveres, cemitérios, tiroteios, ltrados pela memória, pelo sonho, pela sobreposição de tempos. Quanto ao cruzamento entre espaço pri- vado e cidade, quarto e helicóptero, ele tam- bém aora com frequência na obra pregressa do autor, por exemplo, no poema “Minha casa”, de Ontem como hoje ao meio-dia , em que um mo- rador insone contempla de seu refúgio um sem- -teto que revira o lixo, ou na suíte “Minha voz”,com a qual se encerra Um a menos  , onde sobreum capacho, território liminar entre a casa e a rua, uma voz que não consegue entrar se des- mancha, se humilha, muda de gênero enquanto aguarda a manhã “chegar com solavancos depneus”. A suíte é precedida por uma epígrafe
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