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O massacre de Civitella

O massacre de Civitella
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    O massacre de Civitella  Esses acontecimentos geraram o que Giovanni Contini muito bem descreveu como uma “  memória dividida ”  2 . Contini identifica, por um lado, uma memória “  oficial ”  , que comemora o massacre como um episódio da Resistência e compara as vítimas a mártires da liberdade; e, por outro lado, uma memória criada e preservada pelos sobreviventes, viúvas e filhos, focada quase que exclusivamente no seu luto, nas perdas pessoais e coletivas. Essa memória não só nega qualquer ligação com a Resistência, como também culpa seus membros de causarem, com um ataque irresponsável, a retaliação alemã: “  Hoje, toda a culpa recai sobre os alemães... Mas nós culpamos os membros da Resistência, porque, se não tivessem feito o que fizeram, aquilo não teria acontecido. Eles mataram em retaliação ”    Eles pioraram as coisas agindo dentro dos muros do povoado e não removendo os corpos e outros vestígios de sua ação, o que inevitavelmente envolveu a população. A provável irresponsabilidade dos membros da Resistência não pode, de modo algum, diminuir ou justificar a responsabilidade dos alemães. Essas duas memórias entraram em choque muitas vezes no passado, até mesmo em choque corporal, uma vez que a população local entendia as celebrações oficiais em nome da Resistência como uma violação de suas memórias e perdas.  A conferência internacional In Memorian: por uma Memória Européia dos Crimes Nazistas após o Fim da Guerra Fria (Arezzo, 22 a 24 de junho de 1994) foi também uma tentativa dos acadêmicos de tendência esquerdista de reparar a memória menosprezada e violada de Civitella. Essa reparação, porém, teve lugar num contexto histórico ambíguo, no qual a esquerda, incerta quanto a seus motivos e precavida quanto a qualquer tipo de ideologia, muito freqüentemente adota, sem questionar, os motivos e as ideologias de terceiros, inclusive de seus antigos adversários. No entanto, a tarefa do especialista, após recebido o impacto, é se afastar, respirar fundo, e voltar a pensar. Com o devido respeito às pessoas envolvidas, à autenticidade de sua tristeza e à gravidade de seus motivos, nossa tarefa é interpretar criticamente todos os documentos e narrativas, inclusive as delas. Como tentarei demonstrar, na verdade, quando falamos numa memória dividida, não se deve pensar apenas num conflito entre a memória comunitária pura e espontânea e aquela “  oficial ” e “  ideológica ”  , de forma que, uma vez desmontada esta última, se possa implicitamente assumir a autenticidade não-mediada da primeira. estamos lidando com uma multiplicidade de memórias fragmentadas e internamente divididas, todas, de uma forma ou de outra, ideológica e culturalmente mediadas Em muitos dos trabalhos apresentados na conferência, contudo, a apreciação reverente  – sem dúvida justificada pela dramaticidade dos acontecimentos e pela emoção e dor das testemunhas- prevaleceu sobre a análise e a interpretação. Por isso, embora Giovanni Contini tenha analisado as contradições dos depoimentos dos membros da Resistência, 5 ninguém fez o  mesmo com os dos sobreviventes  – se não para questionar sua credibilidade, pelo menos para investigar a estrutura e o significado de sua construção narrativa dos eventos. dilema do “  exprimível e inexprimível ” e à dificuldade de comunicar e partilhar o luto e a perda. “  O que todos os civitellini contam é verdade: não se pode contar, não se pode explicar, não se pode fazer os outros entenderem. Alguém que nunca tenha passado por uma experiência desse tipo jamais conseguirá sentir o que as pessoas de Civitella carregam dentro de si. ”  6 Pietro Clemente, “  é como se os pesquisadores que entram em diálogo com uma dor que a razão não consegue controlar ficassem contaminados por ela e precisassem começar a fazer sua própria elaboração dessa perda. ”    Clemente concorda com a avaliação histórica segundo a qual o erro dos membros da Resistência não exime de culpa os alemães; ele salienta, porém, que o ponto de vista antropológico está mais interessado “nas representações de uma comunidade do que na verdade dos fatos ou na tendência dos valores ”  . O luto é um ato de resistência contra o individualismo atomizado do pensamento moderno e, como tal, um “  escândalo ” contra a “  incapacidade do pensamento leigo e da Resistência de entender experiências que não sigam o seu próprio modelo ”  . Não tenho certeza se essa incapacidade de entender outras experiências e outros modos de pensar que não os próprios é uma prerrogativa do pensamento leigo e progressista Lidar com experiências que não as próprias e compreendê-las deve, também, constituir a essência mesma da experiência antropológica. a morte, o luto e a perda são experiências indescritíveis, por si mesmas e pelas limitações intrínsecas da linguagem: é improvável que qualquer experiência possa ser verdadeiramente expressa ; é inquestionável que ninguém pode compartilhar a experiência alheia, dolorosa ou não. Mas não se pode negar o fato de que, em Civitella como em outros lugares, o indizível é dito. O esforço para contar o incontável resulta em narrativas interpretáveis, constructos culturais de palavras e idéias. Francesca Cappelletto e Paola Calamandrei encontram em Civitella uma “  memória grupal (...) moldada no decorrer de inúmeras ocasiões narrativas ”  , formalizada em narrativas dotadas de “  uma forma bastante coerente, estruturada e centrada num tema político ”  : Pode se também perceber claramente, nas situações narrativas, um elemento de controle social sobre a forma de relatar os acontecimentos. ”  9 É exatamente porque as experiências são incontáveis, mas devem ser contadas, que os narradores são apoiados pelas estruturas mediadoras da linguagem, da narrativa, do ambiente social, da religião e da política. As narrativas resultantes  – não a dor que elas descrevem, mas as palavras e ideologias pelas quais são representadas- não só podem, como devem ser entendidas criticamente.  “  o escândalo inicial (...) foi descobrir que a memória coletiva dos sobreviventes não só se recusava a considerar-se parte do movimento da Resistência, como também opunha se abertamente a ele, acusando os membros locais da Resistência de causadores circunstanciais dos massacres ”  . PÁGINA 6
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